Cartão feito pela Sofia (com ajudinha da mamãe)

Sou pai há pouco menos de 6 meses. O meu pai, há pouco mais de 33 anos. No exato momento em que escrevo, minha filha está aqui do meu lado, me olhando. É véspera do Dia dos Pais e, para mim, o primeiro. Ao menos com a Sofia já do lado de fora. O mundo é outro, completamente diferente. Eu preciso me preocupar com outras coisas que meu pai não precisava, mas certamente, algumas não mudaram. Muitos dos valores que meu pai me passou, senão todos, são os mesmos que pretendo passar a minha filha e, sem dúvidas, a infância que ele me possibilitou é a mesma que quero dar a ela.

Quando cheguei à adolescência, me afastei de meu pai. De um dia para o outro, foi como se um muro tivesse sido levantado entre nós. Rápido assim. Nossas conversas se resumiam a um bom dia, boa noite e de repente era como se ele tivesse um estranho em casa. Culpa minha, por não saber me comportar diante de uma situação sem razões aparentes. Culpa, dele, pelos mesmos motivos, o que me faz acreditar que, como tudo na vida, também aprendemos a ser filho e pai. Isso durou alguns bons anos, quando minha mãe, sabiamente, fez o que nenhum de nós tinha coragem de fazer. Nos colocou frente e frente, disse “Conversem e se entendam!” e saiu. Lembro dessa noite até hoje. Foi uma conversa brevíssima, de poucas palavras, mas muito se disse ali. Hoje, mesmo com um estado de distância entre nós (estou em SC e meu pai no RS), somos muito mais próximos do que naqueles dias. Era um muro frágil e que bom que era assim. Minha mãe tirou apenas um tijolo, que foi suficiente para que ele ruísse.

Falo sobre isso porque foi uma lição importante. E porque pela primeira vez acredito ter a dimensão de como isso deve ter sido dolorido para meu pai, justamente porque pela primeira vez posso me colocar na pele dele, algo que começou lá na sala de parto, no exato momento em que vi Sofia chegar e que tenho a nítida sensação de que será algo recorrente daqui para frente.

Algumas pessoas se privam da condição de pais sob o argumento de que é loucura colocar filhos no mundo do jeito que ele está hoje. Eu prefiro acreditar que loucura é não acreditar que são justamente eles que podem mudar tudo. Quem bom que não pensaram dessa forma (ou simplesmente não pensaram) os pais de Nelson Mandela, de Paulo Freire, de Martin Luther King e de tantos outros exemplos. Não é uma questão de jogar a responsabilidade para as gerações futuras, mas sim, de dar passagem à vida.

No final das contas, ser pai é recomeçar, trocar de lado e ter a oportunidade de não repetir os mesmos erros e tentar melhorar tudo aquilo que foi bom. De chegar mais perto quando você sente que está se afastando. De evitar que muros se construam ao invés de ter que derrubá-los depois. De demonstrar o quanto seu pai é importante mesmo que você ache que isso está implícito. Algumas coisas sempre precisam ser ditas, porque algumas coisas nós sempre precisamos ouvir.

Pai, esse texto é pra ti. E é pra mim. É também pra Jacira e pra Sofia, sem as quais não seríamos pai e avô.

Feliz Dia dos Pais.

André, agosto de 2010